O sonho de Snu

Num mundo onde a terra não existe, o oceano é visto de todos os lugares e nenhuma lua habita o céu, existem colunas imensas que apontam seus capitéis na superfície: elas não seguram nada e é sobre uma delas que vive Snu.

Snu é uma mulher tão antiga quanto seu mundo, ela passa a eternidade junto ao imóvel oceano e o escuro céu que também não tem sol. Apenas uma luz brilha fraca no horizonte continuamente.

Tudo é sempre azul e comum, bolhas luminosas escapam do oceano e alçam aos céus, muitas vezes Snu brinca com elas e tenta unir duas fazendo que fiquem maiores e maiores sempre.

Snu não tem objetos, não tem roupas, não tem linguagem, mas mesmo assim passa o tempo a cantar e brincar, muitas vezes desejou em suas danças passar para uma das outras colunas perto dela, mas jamais teve coragem de tentar: sempre temeu o oceano e seus segredos. Sempre as bolhas fugiram dele, por que ela se aproximaria?

Mas uma vez Snu viu uma mosca azul, como tudo em seu mundo, voando por perto, sua rotina se abalou, todos os desejos que ela desconhecia despertaram. Desejou voar como a mosca, desejou conhecer outras paisagens e aprender coisas que ali não podia fazer, desejou se cobrir e ter companhia, desejou ver outras cores e poder sentir o calor.

Snu primeiro tentou bater seus próprios braços como asas, mas seus pés não se levantaram. Depois começou a pular e bater os braços, mas, também, nada a fazia voar como a mosca. Ela arriscou, tentou pular para outra coluna e tentar ver se de lá descobria de onde vinha a luz do horizonte.

Mas ela não alcançou e caiu no oceano... O oceano era escuro e ela afundou rapidamente. Lá ela descobriu o que é respirar e percebeu que precisava disso para viver, lá ela descobriu que a dança na água não era como nas colunas. Mas lá ela encontrou algo que poderia se comparar a um abraço, ela sentia as correntes fracas da água passando por seu corpo, como se estivessem acariciando-o, a pressão aumentava conforme afundava o abraço se tornava mais apertado.

Em pouco tempo ela morreu, e toda uma eternidade se afogou em seus sonhos.